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Postado em 18 de Dezembro de 2013 às 16h35

Médicos canadenses analisaram 18 mulheres e impacto na cognição dos filhos

  • Nativa Farmácia e Manipulação -

Um estudo feito pela Universidade de Montreal, no Canadá, e apresentado resumidamente em um congresso anual da Sociedade de Neurociência dos EUA em San Diego, aponta que praticar exercícios físicos moderados na gravidez – 20 minutos durante três vezes por semana – pode aumentar o desenvolvimento do cérebro dos bebês. Os resultados, obtidos com 18 mulheres (10 ativas e 8 sedentárias) e seus filhos, escolhidos aleatoriamente, ainda são considerados preliminares e não foram publicados em revista científica.

A pesquisa foi amplamente repercutida por veículos de comunicação pelo mundo. No entanto, o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) do Reino Unido, e médicos ouvidos pelo G1, questionaram suas conclusões.

Para chegar aos resultados, os autores da pesquisa testaram, por meio de um eletroencefalograma (como na foto ao lado), a atividade cerebral dos recém-nascidos entre 8 e 12 dias de vida.

Aqueles cujas mães haviam se exercitado regularmente apresentaram uma maior maturidade cerebral, equivalente a crianças de 4 a 6 meses, e um aumento da atividade no lobo temporal (responsável por funções como memória, fala e linguagem), apontam os pesquisadores, liderados por Elise Labonte-LeMoyne e Dave Ellemberg. Essa vantagem inicial observada em algumas crianças poderia ter um impacto durante toda a vida, acreditam os autores.

A equipe quer agora descobrir se a atividade física da mãe também pode ajudar os bebês a falar e adquirir outras habilidades mais rápido.

Após a repercussão do trabalho, o NHS publicou uma nota afirmando que os resultados divulgados são apenas um resumo e ainda não foram revisados por outros cientistas para serem publicados – por essa razão, não seria possível, neste momento, avaliar a qualidade e a confiabilidade do estudo.

O NHS também fez um alerta sobre o modo, ainda desconhecido, como as voluntárias foram escolhidas e recrutadas, pois os critérios de inclusão ou exclusão da pesquisa não ficaram claros. Isso porque as mulheres mais ativas já poderiam ser também as mais saudáveis em geral - por exemplo, terem uma dieta melhor, não fumarem e apresentarem maior nível de escolaridade.

Consultados pelo G1, os cientistas responsáveis pelo trabalho, os resultados já foram revisados para a conferência da Sociedade de Neurociência e serão submetidos a uma revista científica revisada por pares.

Um dos líderes do estudo, o neurocientista e professor Dave Ellemberg, disse ainda que os britânicos estão corretos ao fazer essas perguntas, e a equipe responsável pelo trabalho compartilhou da mesma preocupação.

"Usamos um protocolo de controle randomizado, em que as mulheres que aceitaram participar foram aleatoriamente designadas a fazer ou não os exercícios. Em seguida, por meio de questionários, entrevistas e internet, fomos capazes de determinar que os dois grupos eram comparáveis. Isso porque não foram encontradas diferenças estatísticas nos hábitos de exercícios pré-gravidez, nos níveis sócio-econômico e educacional, na massa corporal e no peso das voluntárias", explica.

Sobre determinadas condições médicas, tabagismo, consumo regular de álcool e outros hábitos pouco saudáveis, esses já eram critérios que faziam parte do sistema de exclusão da pesquisa, rebate Ellemberg.

Para o NHS, praticar exercícios físicos durante a gravidez é recomendado, mas isso não tornará um bebê mais ou menos inteligente, e sim ajudará a reduzir os riscos de complicações ao longo da gestação e na hora do nascimento, para favorecer um parto vaginal.

Sobre vincular essa pesquisa a um maior nível de inteligência das crianças, Ellemberg diz que essa relação não foi feita pela equipe.

"Isso seria um salto, e seria bom. Mas, por enquanto, sabemos que as áreas do cérebro que acreditamos estar envolvidas na memória de longo prazo são mais maduras. Talvez isso também seja verdadeiro para outras regiões cerebrais. Faremos um acompanhamento de um ano que poderá nos dar essa resposta. Prevejo que deve haver alguma ligação entre uma fala mais rápida e um desenvolvimento motor maior com um QI melhor", analisa o neurocientista.

Segundo o ginecologista e obstetra Marco Antonio Borges Lopes, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e autor do livro "Atividade física na gravidez e no pós parto", pela editora Roca, não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito com base no estudo canadense.

"O que a gente sabe hoje é que a atividade física é certamente boa para a mãe, evita o excesso de peso, a diabetes gestacional, o aumento da pressão arterial, as dores musculares ou ósseas e alterações nos níveis de açúcar no sangue do feto, além de preparar a mulher para o parto. Benefícios futuros, porém, ainda são apenas especulações, nenhum trabalho conseguiu provar isso", destaca Lopes.

Na visão do ginecologista e obstetra Waldemir Rezende, do Hospital das Clínicas da FMUSP, só é possível avaliar a atividade do cérebro de uma criança a partir dos 3 a 5 anos de idade, quando ela começar a usar sua capacidade intelectual. De acordo com o médico, critérios subjetivos encontrados agora pelos pesquisadores podem não representar nada no futuro, pois é muito cedo para validar alguma descoberta.

"Estudar 18 casos não é um trabalho científico; seriam necessárias no mínimo 30 mulheres e segui-las, junto com seus filhos, por pelo menos 10 anos. Exercícios são bons e altamente recomendados, mas não é isso que fará um bebê virar um gênio", diz Rezende.

Segundo Ellemberg, um dos líderes do estudo, encontrar essas participantes específicas já foi um desafio. Quanto ao número considerado baixo, ele contesta que achar resultados estatisticamente significativos em uma amostra pequena indica que houve um forte efeito.

"A única razão pela qual os trabalhos científicos têm uma grande quantidade de voluntários é para reduzir a variância, o ruído estatístico. Portanto, isso torna nossa descoberta ainda mais impressionante", aponta.

Ainda de acordo com Ellemberg, acompanhar essas mulheres a longo prazo é realmente necessário para saber como a descoberta evolui, apontar tendências e possibilidades. Mas a equipe não está pensando nisso agora.

Em relação aos exames de imagem feitos em bebês tão pequenos, o pesquisador diz que a escolha do teste em recém-nascidos é um dos principais pontos fortes do protocolo usado, "porque podemos comparar os dois grupos de crianças antes que eles sejam expostos a fatores externos de maturação do cérebro, sobre os quais temos pouco controle".

"Podemos apenas especular como serão esses resultados mais adiante, mas as chances de que esses bebês tenham uma forte vantagem inicial é grande", acredita Ellemberg.

Benefícios para mães e filhos

Apesar de contestarem os resultados da pesquisa canadense, os obstetras ouvidos pelo G1recomendam atividades regulares para as gestantes, sempre com supervisão de um médico e um preparador físico – principalmente se for uma gravidez de risco ou a mulher for sedentária.

Segundo o ginecologista e obstetra Paulo Margarido, professor da FMUSP e chefe da divisão de ginecologia do Hospital Universitário da USP, exercitar-se durante a gestação traz benefícios cardiorrespiratórios, fortalecimento muscular e ainda pode evitar riscos de aborto ou nascimento prematuro.

"Estimular a mulher a se manter ativa desde o início da gravidez também se traduz em fetos mais saudáveis e menos sujeitos a problemas de crescimento", afirma Margarido.

O obstetra Waldemir Rezende acrescenta que o ideal é que as mães escolham opções lúdicas, prazerosas, que ajudem a alongar o corpo, respirar melhor, e não provoquem desconforto. As praticantes também não devem intensificar o ritmo dos exercícios nesse período, mas manter o que já vinham fazendo antes ou até desacelerar um pouco. Além disso, é importante se manter alimentada a cada 3 horas e se hidratar bem.

"A hidroginástica é a melhor alternativa, pois tem temperatura controlada, baixo impacto, não há pressão sobre a coluna vertebral nem risco de torções. A natação também é indicada, mas em um ritmo mais leve", recomenda Rezende.

O médico explica que a atividade física ainda aumenta as taxas de cortisol (hormônio do estresse) no sangue, o que pode ajudar a acelerar a maturidade do pulmão e do sistema nervoso central do feto. Em excesso, porém, esse hormônio favorece o ganho de peso e a retenção de líquidos para a mãe, e o aumento nos níveis de insulina para ela e o filho.

"É importante também que a mulher não aumente sua temperatura corporal acima dos 39° C durante os exercícios, pois isso pode causar malformações no tubo neural do embrião, como espinha bífida (a coluna não se fecha). Essa é uma temperatura crítica, mesmo que por pouco tempo, como 10 a 15 minutos", explica Rezende.

Além disso, durante a gravidez, as mulheres têm maior risco de hipoglicemia (queda nos níveis de açúcar no sangue) e de torções ou contusões, porque as articulações ficam mais úmidas e moles, como forma de preparação para o parto.

"Exercícios mais intensos como musculação podem aumentar a pressão no músculo abdominal e desencadear um parto prematuro. Halterofilismo é totalmente proibido, porque ainda força a coluna e pode gerar uma hérnia de disco", ressalta Rezende.

De acordo com o obstetra, a melhor medida para saber se um exercício está exagerado é ver no dia seguinte se existe dor muscular ou cãibra, sinal de que houve produção de ácido lático nos músculos.

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